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Revista
Mente Cérebro
edição
168 - Janeiro 2007
Gaël Chételat e Catherine Lalevée é pesquisadora
do grupo de neuropsicologia cognitiva e neuroanatomia funcional
do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica,
em Caen (França). CATHERINE LALEVÉE é neuropsicóloga
da clínica da Universidade de Caen.
A sombra do Alzheimer
Até que ponto lapsos de memória se tornam
normais com o envelhecimento? Testes neuropsicológicos
e imageamento cerebral revelam o tênue limite entre
distúrbios cognitivos leves e demência grave.
por Gaël Chételat e Catherine Lalevée
Seu Vitório está ficando esquecido. Aos 65
anos, vive procurando seus objetos pessoais, sem conseguir
lembrar onde os colocou. Às vezes vai até a
cozinha e se pergunta, confuso, o que pretendia fazer lá.
A família está preocupada e quer que ele procure
um médico. Será que é mesmo tão
grave andar um pouco desligado? Guardar a carteira no lugar
errado, esquecer um aniversário - isso pode acontecer
com qualquer um, vez ou outra. Afinal, não é comum
que pequenos "brancos" se tornem mais freqüentes
com a idade? Seu Vitório nunca viu motivo para preocupação
até o dia em que esqueceu de buscar o neto na escola.
A partir daí também ficou cismado: até que
ponto esse tipo de esquecimento é normal? Seriam os
primeiros sinais da doença de Alzheimer? Seria necessário
fazer exames?
A preocupação de seu Vitório tem fundamento.
A doença de Alzheimer é extremamente rara em
pessoas com menos de 60 anos, nas quais problemas de memória
quase sempre são conseqüências do stress
ou da depressão. A partir da sexta década de
vida, porém, o risco de desenvolver a doença
aumenta significativamente. Para ter uma idéia, entre
60 e 65 anos, uma em cada 20 pessoas é diagnosticada
com o distúrbio; acima dos 85, essa relação é de
um para quatro.
A
demência de Alzheimer é uma doença
neurodegenerativa que acomete neurônios de diversas
regiões cerebrais. Por isso os indivíduos afetados
não sofrem apenas de problemas de memória,
mas também de outros distúrbios cognitivos
que incluem a fala, a capacidade de concentração,
de orientação espacial, de raciocínio
e cálculo. Não há cura e as terapias
disponíveis apenas retardam o desenvolvimento da doença
por alguns poucos anos. A administração de
drogas para aumentar os níveis do neurotransmissor
acetilcolina no cérebro, por exemplo, auxilia a comunicação
neuronal e tende a desacelerar sua degeneração.
Esse tratamento é até três vezes mais
eficaz no estágio inicial da doença do que
mais tarde, quando os sintomas se desenvolveram por completo
e a transmissão entre os neurônios já foi
comprometida.
Diagnóstico precoce, portanto, é fundamental.
Na verdade, a comprovação inequívoca
de que alguém sofre de Alzheimer só é possível
por meio da análise do tecido cerebral e só pode
ser realizada, obviamente, depois da morte do paciente. Para
diferenciar a doença de Alzheimer de outros tipos
de demência e distúrbios neurológicos
na prática clínica, a medicina dispõe
de testes neuropsicológicos e procedimentos de imageamento
que permitem inferir o estado de deterioração
cerebral.
Quando
seu Vitório chegou ao Instituto Nacional de
Saúde e Pesquisas Médica de Caen, França,
a primeira coisa que fizemos foi aplicar nele uma bateria
completa de exames neuropsicológicos.
Antes de mais nada, um neuropsicólogo testou a capacidade
de memorização de seu Vitório. Ele teve
de memorizar algumas palavras e, mais tarde, repetir as de
que se lembrava, espontaneamente ou por associação.
A tarefa seguinte foi ligar números e letras escritos
de forma desordenada numa folha de papel: um traço
devia ligar o algarismo "1" à primeira letra
do alfabeto, "A", depois o traço seguia
até o algarismo "2" e de lá para
a letra "B"; e assim por diante. Alternar letras
e números exige certa flexibilidade mental, muitas
vezes reduzida nos pacientes com Alzheimer, mas não
nas pessoas que apresentam os sintomas comuns de envelhecimento.
Na
terceira etapa, a capacidade de concentração
de seu Vitório foi colocada à prova: ele teve
de mostrar se era capaz de manter a atenção
em determinado aspecto de uma situação, ignorando
todo o resto. No cotidiano, isso ocorre, por exemplo, quando
temos de prestar atenção em nosso interlocutor
apesar das conversas paralelas. O neuropsicólogo mostra
ao paciente uma folha na qual estão escritos os nomes
de dezenas de cores. Porém, as cores em que as palavras
estão escritas são diferentes das que designam.
A palavra "vermelho", por exemplo, está escrita
em azul. A pessoa submetida a esse teste tem de dizer, o
mais rápido possível, as cores em que as palavras
estão escritas. Não é uma tarefa fácil,
pois é preciso reprimir a tendência natural
de ler, esquecer os significados, e concentrar-se totalmente
nas cores.
Depois
o neuropsicólogo testou a percepção
espacial de nosso paciente pedindo que ele reproduzisse um
desenho. Por fim, seu Vitório teve de imitar gestos,
escrever palavras ditadas e resolver problemas simples que
exigiam adição e multiplicação
para mostrar como andavam seu raciocínio e sua capacidade
de calcular.
Ele
não conseguiu repetir todas as palavras que deveria
ter memorizado e esqueceu alguns detalhes ao reproduzir um
desenho. Segundo os neuropsicólogos, tais dificuldades
se enquadram entre os chamados distúrbios cognitivos
leves, que incluem problemas de memória um pouco mais
sérios que os considerados comuns à idade mas
não afetam outras funções cognitivas.
Trata-se de uma zona cinzenta, como dizem os médicos,
entre as queixas normais da idade e a doença de Alzheimer.
Em outras palavras, isso significa que seu Vitório
precisa passar por mais exames, ainda que seu estado não
seja preocupante. A idéia é esclarecer se essas
dificuldades cognitivas leves são ou não sinais
precoces da demência de Alzheimer. Assim nosso paciente
foi parar dentro do "tubo", isto é, do equipamento
de ressonância magnética nuclear que mostra
o estado da estrutura cerebral, podendo detectar também
alguma lesão anterior, derrames ou tumores ainda não
diagnosticados.
O
objetivo principal da ressonância magnética
nesse caso é afastar a possibilidade de outras doenças
ou lesões cerebrais serem a causa do distúrbio
de memória. Entretanto, há outros sinais de
Alzheimer que podem ser identificados pela ressonância,
já que a degeneração neuronal progressiva
deixa marcas bem características: a chamada degeneração
neurofibrilar. Ela aparece primeiro em certas regiões,
principalmente no hipocampo estrutura essencial para a memória
, assim como na área que o circunda: o giro paraipocampal.
Depois, as lesões se espalham por todo o cérebro
e levam à atrofia dos tecidos nervosos. Essas regiões
atrofiadas são facilmente visualizadas com a ressonância
magnética. Em alguns pacientes, a atrofia do hipocampo
já aparece em estágio bem inicial, antes mesmo
de a capacidade cognitiva começar a se deteriorar.
No
caso de seu Vitório, as imagens não mostraram
nenhuma anomalia típica de Alzheimer ou lesões
que indicassem outras doenças. Observou-se, no entanto,
uma degeneração difusa, comumente associada à idade
avançada. O médico o aconselhou a repetir os
exames a cada seis meses para ter certeza de que seu estado
permanece estável. Além disso, incentivou o
paciente a participar de um estudo no qual investigamos distúrbios
de memória e alterações associadas a
eles a longo prazo, tanto do ponto de vista neuropsicológico
como do imageamento cerebral. Com isso pretendemos aumentar
o conhecimento sobre a degeneração neuronal
progressiva e buscar novos critérios diagnósticos.
Seu
Vitório consentiu em submeter-se a alguns testes
para, dessa vez, examinar seu desempenho em relação
ao armazenamento e recuperação de informações.
Aproveitamos também para examinar mais a fundo as
pequenas alterações de seu cérebro.
Para tanto, fizemos uso de um método estatístico
aplicado às imagens de ressonância magnética
que permite determinar com precisão o volume de regiões
cerebrais específicas com isso podemos avaliar se
e em que medida determinadas estruturas estão fora
dos padrões aceitáveis para a idade dele.
Por
meio da volumetria por ressonância magnética é possível
ver sutilezas que não aparecem na simples observação
das imagens. Assim descobrimos que os neurônios da
região hipocampal desaparecem progressivamente também
em pessoas que sofrem de distúrbios cognitivos leves.
Além disso, o cérebro desses pacientes apresenta
outras anomalias, por exemplo em partes do lobo temporal
e do córtex cingular - áreas também
afetadas em pessoas com demência. Portanto, a fronteira
entre distúrbios moderados e a doença de Alzheimer
parece ser bastante tênue. Ao que tudo indica, porém,
nem todas as pessoas com distúrbios cognitivos leves
evoluem obrigatoriamente para um quadro de demência.
Nosso
estudo pretendia investigar mais a fundo as diferenças
entre o cérebro de pessoas como seu Vitório
e de quem sofre de Alzheimer, por isso a terceira etapa da
pesquisa incluiu outro método de diagnóstico
por imagem: a tomografia por emissão de pósitrons
(PET), que torna visível a atividade metabólica
dos tecidos.
Injetamos
em seu Vitório uma pequena dose de glicose
marcada por um isótopo radioativo. Como o cérebro
usa o açúcar como fonte de energia, a substância
se acumula preferencialmente nas áreas de atividade
metabólica mais intensa. Como a glicose está marcada
pelo isótopo, há uma clara distinção
de áreas muito ou pouco ativas nas imagens da PET,
que complementa os resultados da ressonância magnética.
Hoje sabemos que o cérebro pode apresentar problemas
de função mesmo na ausência de lesões
na sua estrutura. Inversamente, é possível
que uma região pouco degenerada cumpra suas tarefas
perfeitamente porque os demais neurônios compensam
o prejuízo -fenômeno conhecido por plasticidade
neural.
Com
a ajuda das imagens obtidas por PET descobrimos que, mesmo
em pacientes com Alzheimer, áreas visivelmente
atrofiadas nem sempre são responsáveis pelo
déficit cognitivo. Em alguns casos, o hipocampo afetado
apresenta atividade normal, ao passo que o metabolismo de
outras regiões está extremamente reduzido,
como no córtex cingular posterior e na região
intermediária entre os lobos parietal e temporal.
O mais importante, porém, é que podemos visualizar
essa perda de atividade antes mesmo que sintomas agudos de
Alzheimer venham à tona. Por outro lado, pacientes
com distúrbios cognitivos leves, como seu Vitório,
não apresentaram redução metabólica
no lobo temporoparietal. Não há dúvida,
portanto, que a PET é uma ferramenta importante no
diagnóstico precoce da doença de Alzheimer,
mais do que exames neuro-psicológicos. O problema é que
se trata de um procedimento extremamente caro, muito mais
usado em pesquisas do que na rotina médica. Esperamos
que seus custos diminuam no futuro, como ocorre com a maioria
das tecnologias, já que o ganho para os pacientes é muito
grande, pois quanto antes a doença for diagnosticada,
mais poderemos prolongar o período de vida saudável
dos pacientes.
Seu
Vitório e sua família estão mais
tranqüilos. Os exames dele não apontaram nada
além dos distúrbios cognitivos leves. É muito
improvável, portanto, que ele perca suas lembranças
de uma hora para outra. Deverá levar uma vida independente,
pelo menos do ponto de vista mental, por muitos anos ainda.

INDICADORES CEREBRAIS: a doença de Alzheimer deixa
claras marcas no cérebro. O hipocampo estrutura
essencial para a memória - encolhe drasticamente
nos indivíduos afetados (abaixo) em comparação
a pessoas saudáveis (acima)
É comum os idosos terem dificuldades de se lembrar
de determinados eventos. Se esses esquecimentos se mantêm
estáveis ou pioram lentamente, os médicos os
consideram sintomas normais do envelhecimento. Nesses casos,
métodos de imageamento revelam pequena redução
do volume cerebral e certa limitação das atividades
do lobo frontal.
Os distúrbios cognitivos leves se distinguem pela
recorrência dos lapsos de memória. Além
disso, os pacientes têm problemas para memorizar acontecimentos
atuais. O cérebro deles sofre atrofia em certas regiões,
especialmente no hipocampo e no lobo temporal. A atividade
do córtex cingular posterior e da região intermediária
entre os lobos temporal e parietal (lobo temporoparietal)
também se reduz. A evolução desse tipo
de distúrbio é variável e deve ser supervisionada
por um médico em intervalos regulares de tempo.
Quando
os problemas de memória e alterações
anatômicas do cérebro aumentam rapidamente, é quase
certo que o diagnóstico seja a doença de Alzheimer.
Além de não se lembrarem dos acontecimentos
passados, os pacientes têm dificuldades de memorizar
novas informações. Os primeiros indícios
geralmente revelam mais de uma função cognitiva
afetada, como fala e concentração. Nos estágios
mais avançados, todas elas costumam ficar comprometidas.
Os exames de imagens mostram nítida diminuição
do tamanho do hipocampo desses pacientes, bem como do córtex
cingular posterior e do lobo temporoparietal. Na fase final
da doença as lesões comprometem também
todo o córtex frontal.
A
notícia do Alzheimer abala qualquer família,
e poucas estão preparadas para a responsabilidade
e a sobrecarga que é cuidar de um portador da doença.
A Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz)
oferece apoio e orientação sobre tratamento
e aspectos cotidianos do acompanhamento do paciente. Formada
por parentes de portadores e profissionais de saúde,
a Abraz está presente em 16 estados. Tel.: 0800-55-1906.
Site: www.abraz.org.br
Promessas
diagnósticas
Além dos testes neuropsicológicos, da ressonância
magnética e da tomografia por emissão de
pósitrons, os cientistas contam com uma nova ferramenta
para identificar as alterações anatômicas
típicas da doença de Alzheimer: o imageamento
por tensor de difusão (DTI, na sigla em inglês).
Trata-se de um tipo de ressonância magnética
que permite a caracterização da estrutura
de tecidos fibrosos (como as fibras nervosas) por meio
de medidas locais da difusão de moléculas
de água.
Nos tecidos saudáveis, elas correm ao longo dos
axônios; na doença de Alzheimer a membrana
axonal é danificada, atrapalhando a movimentação
dessas moléculas. A DTI mede essa diferença
e revela lesões muito precoces.
Outra inovação na área de diagnóstico
por imagem foi anunciada em 2005 por pesquisadores japoneses
do Instituto Riken de Pesquisas Cerebrais, em Saitama.
Eles conseguiram tornar visíveis as placas de proteína
amilóide no cérebro de ratos com Alzheimer,
no qual foi injetada uma molécula capaz de ultrapassar
a barreira hematoencefálica e se fixar nos depósitos
de proteína. A substância injetada foi marcada
com flúor-19, que aparece em destaque nas imagens
de ressonância magnética e, logo, revela a
localização precisa das placas amilóides.
O procedimento ainda está em fase de testes em animais.
Alterações na bioquímica cerebral também
podem ser usadas para fins diagnósticos. Harald Hampel,
da Universidade Ludwig-Maximillian, em Munique, aposta na
proteína tau modificada. Nos pacientes com Alzheimer
ela apresenta fosfato em excesso, o que compromete sua função
de suporte e faz com que os neurônios percam estabilidade.
Como a proteína tau é encontrada também
no liquor, pode ser facilmente coletada e converter-se, no
futuro, em um marcador biológico da doença
de Alzheimer.
Um
estudo clínico do qual participaram 77 voluntários
com distúrbios leves de memória mostrou que
a maior concentração da proteína tau
no liquor se correlacionou à severidade dos prejuízos
cognitivos.
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