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Distimia
Por Adriano
Persone Prestes de Camargo com Belquiz Avrichir
Mestre em Psiquiatria pela FMUSP e médica assistente
do IPQ-HC.
Você conhece alguém meio mal humorado, pessimista,
que vive se queixando de estar cansado? Sempre sem muita
disposição, ele parece que tem pouca energia.
Fala que é daqueles que teve o azar de ter problemas
com o sono! Dorme mal, vive reclamando da vida! Outras vezes
cochila pelos cantos, durante o filme, no meio das conversas.
Parece sempre meio desinteressado. Alguns dizem que ele tem
o "gênio difícil" e que é difícil
de conviver.
Se
você conhece alguém com as características
acima saiba que ele pode ser um portador de Distimia e que
no Brasil, existem 5 a 11 milhões de pessoas que sofrem
desse mal! Eles são 3 a 6% por cento da população
no mundial! De cada 100 pacientes atendidos nos postos de
saúde, 7 provavelmente têm Distimia.
Entre
os pacientes que possuem algum transtorno mental, mais
ou menos um terço deles (36% aproximadamente),
apresentam sintomas depressivos leves e de longa duração.
Essas pessoas podem ter Distimia. Esses números, que
parecem tão altos, ocorrem porque é muito comum
uma pessoa que tem um transtorno mental, como pânico,
uma fobia ou obsessões, desenvolver sintomas depressivos. É o
que os psiquiatras chamam de "comorbidade", quando
dois ou mais quadros psiquiátricos se associam num
mesmo indivíduo.
A
Distimia é um tipo de depressão que faz
parte do grupo dos transtornos mentais que interferem com
o humor das pessoas e por isso os psiquiatras chamam esses
quadros de "Transtornos do Humor". Ela é diferente
dos outros tipos de depressão porque seus sintomas
são mais leves, mas têm uma longa duração.
Isso torna difícil que o paciente se perceba deprimido,
fazendo com que ele conviva com essa depressão, tentando
se sobrepor, lutar contra ela. É por isso que é tão
prejudicial, pois essa situação acaba por trazer
inúmeras conseqüências para seus portadores.
No entanto, existem estudos internacionais que mostram que
ela é subdiagnosticada pelos médicos, sejam
eles clínicos ou especialistas.
As
pessoas com Distimia apresentam altas taxas de absenteísmo:
faltas no trabalho. Essas taxas são quase tão
altas quanto as faltas devidas às cardiopatias crônicas,
e estão entre as primeiras causas de absenteísmo
no mundo!
Essas
pessoas quase não conseguem sentir prazer nas
coisas que normalmente as interessava, e por isto têm
pouquíssimos interesses. São pessimistas. Muitas
vezes têm dificuldades com o sono, ou com apetite. É como
se um vazio se esparramasse em toda à sua volta, e às
vezes houvesse dentro deles uma espécie de buraco
que não conseguem preencher com nada. Às vezes,
por isso, desenvolvem uma obesidade da qual não conseguem
se livrar.
Como é que podemos então falar de menor gravidade,
se tantas são as conseqüências para aqueles
que sofrem de depressão? A menor gravidade dos sintomas
justifica então menos preocupação com
essas pessoas?
Apesar dos sintomas menos acentuados, a Distimia é um
transtorno que acarreta um prejuízo pessoal muito
importante. Não só do ponto de vista das relações
pessoais, mas no plano econômico também! Em
geral, essas pessoas têm poucas relações,
poucas amizades, e concentram suas atividades quase que exclusivamente
no trabalho, seja ele um emprego formal ou não. Isso
porque, é na situação de trabalho que
as funções e a forma do indivíduo se
comportar são mais bem definidos, facilitando sua
atuação. Apesar de toda essa "dedicação",
seu desempenho profissional é, em geral, mediano,
e muitas vezes insatisfatório para o próprio
indivíduo, pois carrega consigo um peso, uma falta
de vitalidade, de criatividade e de dinamismo que o prejudica
em todos os lados.
É muito comum ouvirmos o paciente contar que faz
as coisas com dificuldade, como se estivesse pesado, lento,
sem prazer, fazendo o mínimo, só o essencial
a cada dia.
Isso
tudo faz com que o indivíduo não procure
ajuda. Ele não vai ao médico, e quando o faz,
raramente procura um psiquiatra. Na grande maioria das vezes
ele vai a um clínico com queixas como falta de apetite,
insônia ou cansaço.
O
clínico, pouco treinado no diagnóstico de
transtornos mentais, não reconhece a depressão
e vai investigar as queixas físicas, com as quais
tem mais familiaridade. Muitas vezes vai prescrever vitaminas,
indutores do sono, tentando tratar cada queixa isoladamente.
Noutros casos, ele consegue reconhecer que o quadro é de
depressão, mas seu conhecimento sobre o tratamento
dos quadros depressivos é limitado e ele não
consegue ministrá-lo corretamente. Isso pode ocorrer
porque a dose do medicamento é insuficiente, ou porque
o antidepressivo escolhido não tem a eficácia
necessária, ou mesmo porque a duração
do tratamento é limitada, etc. Assim, o paciente que,
com muita resistência, procurou ajuda médica,
perde a oportunidade de tratar-se e vai carregar seu sofrimento
por outro longo período, até que faça
(e se fizer...) uma nova tentativa.
Observando
esse tipo de situação, levantamos
formalmente a hipótese de que mesmo os psiquiatras
poderiam não fazer o diagnóstico da Distimia.
Elaboramos um projeto de pesquisa de mestrado, onde checamos
o diagnóstico dado por psiquiatras de um hospital
universitário. Depois, comparamos esse diagnóstico
com o nosso diagnóstico que foi feito usando uma entrevista
padronizada que dá uma margem de acerto do diagnóstico
de Distimia muito boa. Observamos nesse grupo de 80 pacientes
que quase um terço deles (27%) apresentava sintomas
compatíveis com o diagnóstico de Distimia.
Dos 22 pacientes com Distimia, somente oito (36%) foram diagnosticados
como distímicos pelo psiquiatra que os acompanhava,
o que confirmou nossa hipótese inicial.
A
grande maioria das pessoas com Distimia tinha também
outros transtornos mentais associados, numa proporção
bem maior do que os pacientes que não apresentavam
Distimia! Esses quadros associados eram principalmente de
Depressão Maior, um tipo de depressão muito
intensa e aguda. Também encontramos muitos pacientes
com dependência de "calmantes" ou "remédios
para dormir", os benzodiazepínicos, e outros
com quadros de ansiedade como pânico ou fobias.
Esse
trabalho foi feito durante o ano de 1998, no Ambulatório
de Saúde Mental da Santa Casa de Misericórdia
de São Paulo. Conseguimos auxílio financeiro
da FAPESP que é um órgão do governo
do Estado que exige um altíssimo nível de seriedade
e competência de seus colaboradores.
Apresentamos
nossos resultados no Instituto de Psiquiatria do Hospital
das Clínicas da Faculdade de Medicina
da USP como tese de mestrado em dezembro de 1999. Em colaboração
com o professor Hélio Elkis, transformamos nosso trabalho
num artigo científico que foi aceito para publicação
num dos principais jornais científicos na área
dos transtornos do humor, o "Journal of Affective Disorders".
Nada
justifica que, hoje em dia, com a quantidade de novos recursos
disponíveis para o tratamento da depressão,
que o indivíduo continue carregando esse quadro por
tantos anos e de forma tão prejudicial. A própria
OMS (Organização Mundial de Saúde) tem
um programa internacional para treinamento de clínicos
no diagnóstico da depressão. O objetivo do
nosso trabalho foi o de chamar a atenção dos
colegas médicos e psiquiatras para essa situação
e, esperamos que com isso tenhamos dado nossa colaboração
aos portadores de Distimia, para seu reconhecimento mais
rápido e melhor qualidade em seu tratamento.
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