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TDAH – Transtorno de Déficit
de Atenção e Hiperatividade
OBJETIVO
Essa
leitura tem o objetivo de tentar esclarecer o maior número possível de situações
sobre o TDAH – transtorno ainda hoje não compreendido
plenamente, mas certamente bem mais bem entendido do que
há algumas décadas.
ALGUNS CASOS
I
- Bernardo é o tipo de menino que não pára,
que nunca se cansa, é muito curioso e quer saber todos
os porquês. Gosta de ir à escola mas quando
chega lá, prefere ficar brincando no pátio
a ir assistir as aulas da Tia Fernanda. Na sala de aula,
Bernardo até parece que está no “ensaio
da escola de samba”, de tanto que se mexe. São
mãos, pernas, pés, ombros, cintura, cada parte
para um lado. Coitado do menino, parece que está com
pó de mico no corpo! Bernardo bem percebe tudo isso
mas finge não notar, não quer dar o braço
a torcer. Mas a verdade é que Bernardo se sente super
mal por ser assim, sem ter o controle de mudar esse jeito.
Ele se acha fraco e sente-se derrotado por um “troço” que “vive” dentro
dele, fazendo “gato e sapato” dele. Ele chora
muito sozinho, normalmente quando toma banho, para sua mãe
não perceber. Ele não entende por que não
consegue parar quieto e fica agoniado em pensar até quando
vai ser assim. Balança-se até quando dorme.
Bernardo gostaria de virar uma poeirinha, de sumir, pra não
ter que ver a tristeza de seus pais quando virem o seu boletim
... mas as coisas não param por aí. Bernardo
também é muito distraído. Basta uma
buzina na rua, um lápis que caia ou uma criança
passando pelo corredor da escola, que ele não consegue
mais continuar o que estava fazendo. Ele tem que olhar, quer
ver e saber de tudo. Só que quando Renato interrompe
uma tarefa que estava fazendo, é um sofrimento para
reiniciá-la. Confunde-se todo e acaba virando motivo
de chacota, pois sempre é o último a acabar – o
que lhe gera um monte de apelidos, como lesminha, lentinho,
... Outro dia, ele jurou que não ia pedir para ir
ao banheiro e nem ficar se balançando na cadeira ou
mordendo os lápis. Ele tentou tanto ficar quieto,
mas tanto, que dormiu profundamente sobre a carteira de aula
e vocês podem até imaginar o vexame que ele
passou... O Bernardo tem dois problemas, um de querer acabar
logo e aí tudo fica malfeito, sujo, tudo rabiscado
ou amassado, de tanto passar a borracha; e o outro, de querer
fazer tudo limpo e perfeito, mas isso ele não consegue!
Bernando, tadinho, se sente um estorvo, uma pedra no caminho
dos pais.
II-
Renato é irmão do Bernardo e tem 10 anos, é um
ano mais velho, embora seja da mesma séria pois já repetiu
um ano. Renato fica muito zangado quando os colegas reclamam
que ele não fica quieto e que atrapalha a aula. Renato
se sente injustiçado e perseguido e não compreende
porque todos na escola o tratam assim. Renato é bem
impopular no grupo e tem ficado sozinho no recreio, pudera,
já arrumou briga com quase todos os colegas,... uma
dia chegou a dar um soco no Felipe, seu melhor amigo. Renato
fica muito ressentido com a professora e acha que ela exagera
quando diz que ele é embagunçado e confuso.
Ele bem que tenta fazer tudo direitinho mas a verdade é que
onde ele bota a mão tudo vira bagunça. Ele
sai da sala esbarrando em tudo, não pensa no que faz
e fala sem pensar. Outro dia, no recreio, foi jogar de longe,
uma pedra na lata do lixo, mas jogou com tanta força
que rachou a janela da sala de aula! Renato também
mente muito. Mas as pessoas acabam sabendo. Já tentou
imitar a assinatura da mãe no boletim, tenta colar
nas provas, mas sempre se acha certo e os outros, errados.
Outro dia ficou muito irado por não ter sido escolhido
para o time do jogo do futebol. Falou um monte de grosserias
para os meninos do time, e saiu, mas antes deu um cascudo
no colega que estava mais perto. Renato recebeu a sua segunda
advertência da escola, pois respondeu mal à professora,
gritou com ela, xingou e chegou a enfrentá-la, levantando
o dedo em sua direção. No último conselho
de classe, todos foram unânimes em “convidar” o
Renato a ir para outra escola, uma que fizesse melhor o seu
perfil e que fosse uma escola preparada para lidar com crianças
assim, pois ali, naquela escola, eles não estavam
preparados para lidar com o Renato. E também por que
naquela escola eles não aceitavam alunos que repetissem
o ano duas vezes, e o Renato não foi aprovado novamente...
José Renato é o pai do Bernardo e do Renato.
Ele e a esposa, dona Sarita, já foram chamados algumas
vezes à escola. O problema é que o sr. José Renato
fica agressivo, perde o controle, não concorda com
a escola e bota a culpa nas professoras e na falta de competência
da escola. Segundo ele, seus filhos são crianças
espertas e ativas, que nem ele era, quando tinha a mesma
idade. Já dona Sarita fica muito preocupada com o
futuro dos filhos e gostaria de levá-los a um médico
para uma avaliação mas nem pensar – o
sr. José Renato jamais aceitaria! E muitos anos se
passaram com o casal brigando por isso e hoje a relação
deles está tão desgastada que a dona Sarita
está pedindo o divórcio, pois não agüenta
mais o sr. José Renato.
III-
A Beatriz, ou Bia, como ela é chamada, é uma
linda menina na flor dos seus 8 anos, que é calma,
tranqüila, e nem faz barulho na aula. Adora sentar-se
junto à janela e ficar seguindo com o olhar o revoar
das borboletas do jardim! A professora já percebeu
que ela é muito distraída e que vive no mundo
da lua. Nas provas, erra besteiras e até matérias
que ela sabe, de tão desatenta que é! Quando
acaba a aula, ela sempre esquece alguma coisa na escola.
Sua cabecinha não se fixa ali, nos seus pertences.
Já perdeu um monte de casacos e livros, entre outras
coisas. Em casa, dois dias antes das provas, Bia estuda a
matéria toda, e assim consegue tirar notas suficientes
para passar. Mas outro dia foi um problema. Sua mãe
pediu a ela que tirasse a tomada do ferro, pois ela ia atender
ao telefone. Mas ao chegar lá, Bia se esqueceu o que
tinha ido fazer. Logo depois, a casa toda estava uma fumaça
só! Que perigo! Bia ficou de castigo um dia e meio,
trancada no quarto e vai ficar uma semana sem ver o seu programa
favorito de TV. Dona Dora, a mãe de Bia, é muito
nervosa e fica com muita raiva, acha que ela faz de propósito,
e dá vários apelidos a ela, como desmiolada,
alienada, bêbada, destrambelhada, retardada, surda,
etc. Bia apanha muito da mãe, e sofre com isso, e
na escola teve uma piora muito grande na parte social. Não
tem nenhuma amiga, fica sentada num canto durante todo o
recreio, olhando para o vazio. Bia é negligenciada
pelas crianças da escola, que já mandou vários
bilhetes para a dona Dora, mas a Bia perde todos eles e ainda
se esquece de avisar a mãe. A escola está preocupada,
pois acham que Bia tem um quadro amotivacional e querem que
seus pais a levem ao médico. O pai da Bia está pensando
em mandá-la para um colégio interno bem rígido,
para ver se ela toma jeito naquela “cabeça oca”.
Os pais da Bia se sentem impotentes e se acham culpados por
ela ser assim, e vivem brigando e se culpando mutuamente.
O colégio interno seria uma maneira desses pais se
livrarem do “problema-Bia” e ficarem menos angustiados.
A presença da filha para esses pais é muito
penosa, na medida em que eles não sabem lidar com
tanta frustração.
Casos
como esses, onde a situação pode se
complicar tanto, poderíamos traçar um paralelo
com famílias que “apanham no escuro”,
sem sequer saber de que direção vem o “ataque” e
muito menos como se defender,... muitas vivem “anos” apanhando
no escuro, ...
INTRODUÇÃO
A
procura por tratamento psiquiátrico para os mais
variados tipos de desordens emocionais tem aumentado significativamente
nos últimos anos.
Depressão, ansiedade, desatenção,
esquecimentos, desmotivação, irritabilidade
e problemas de relacionamento, são queixas freqüentes
e às vezes podem ser de difícil manejo por
parte do especialista, constituindo-se em um desafio na prática
médica diária.
É essencial que uma anamnese detalhada, investigando
a vida do paciente desde a sua concepção, faça
parte da rotina do médico no seu dia-a-dia. O diagnóstico
correto é de suma importância, pois desordens
emocionais de início precoce têm sido cada vez
mais comuns nos consultórios.
O
advento das neurociências e o avanço das
pesquisas em várias áreas têm possibilitado
o entendimento do mecanismo fisiopatológico de muitos
transtornos até então não muito bem
compreendidos, como é o caso do TDAH (Transtorno do
Déficit de Atenção com Hiperatividade).
Vários pacientes relatam que “sempre foram
crianças diferentes das outras” e que “sempre
tiveram muitos problemas na escola”, tendo sido alvos
de apelidos, preconceito, rejeição e às
vezes de duras críticas, tanto no contexto familiar
quanto na escola (às vezes até por alguns professores)
ou no trabalho.
Em
casos como esses, a vida pode evoluir de modo disfuncional
e
desadaptativo, muito aquém do esperado e com provável
aparecimento de múltiplas “seqüelas emocionais”,
que podem variar desde o sentimento de desmoralização
e auto-estima baixa até a presença de outros
transtornos mentais.
O
que há alguns anos, poderia parecer rebeldia,
preguiça ou falta de interesse, foi identificado há quase
um século como um transtorno provocado por uma anomalia
no desenvolvimento de algumas áreas cerebrais.
O
profissional precisa estar atento, pois é possível
que alguns desses pacientes sejam portador do TDAH (Transtorno
de Déficit de Atenção e Hiperatividade). É muito
comum que jovens e adultos apresentarem sintomas da doença.
O que ocorre é que eles têm o TDAH desde a infância
e nunca foram diagnosticados, e após alguns anos de
TDAH não diagnosticado e sem tratamento, a evolução
costuma ser desfavorável, com deficiências em
múltiplas áreas, apesar de serem pessoas inteligentes
e criativas e de muitas já terem se submetido a vários
tipos de tratamento.
O
TDAH é um transtorno neurobiológico, heterogêneo
e do desenvolvimento, portanto, de início precoce.
Quase nunca aparece sozinho, sendo muito comum à presença
de uma ou mais doenças (comorbidades), que tornam
o quadro mais complexo e de difícil diagnóstico
e tratamento.
O
TDAH, ao contrário do que se pensava, é uma
condição clínica que pode persistir
até a fase adulta em cerca de 60 a 70 % das vezes,
perpassando todas as fases de desenvolvimento e apresentando
diferentes desafios durante cada fase.
Também, ao contrário do que se imaginava,
o TDAH não é uma doença “inocente” e
benigna. Em virtude do significativo impacto causado por
ela na sociedade, em que se pese, entre outros, o sentimento
de fracasso precoce relatado por grande parte dos pacientes
e o alto custo da doença, o TDAH é uma condição
séria que exige intervenção imediata
e multimodal, com equipe de profissionais qualificada para
o diagnóstico, tratamento e manejo dos sintomas.
Pais,
professores e profissionais de saúde precisam
conhecer o desenvolvimento normal de uma criança para
estarem capacitados a identificar precocemente os sintomas
do TDAH, que muitas vezes pode se apresentar de modo sutil
e de difícil diagnóstico.
Estudos
estatísticos mostram que crianças
com TDAH quando comparadas a crianças normais da mesma
idade e condição sócio-econômica,
apresentam maior risco de sofrerem rejeição
e preconceito, de manifestarem mais sintomas emocionais além
de desenvolverem mais transtornos psiquiátricos ao
longo da vida, incluindo, entre vários outros, comportamento
anti-social, abuso de álcool e drogas e transtornos
do humor e ansiedade.
Lamentavelmente,
o TDAH é uma doença ainda
pouco conhecida, subdiagnosticada e subtratada em todo o
mundo, sendo urgente a criação de um programa
informativo para a população e dentro das escolas,
procurando esclarecer equívocos, desfazer mitos, fazendo
com que o transtorno seja mais bem conhecido e seus portadores,
mais encaminhados para tratamento.
EVOLUÇÃO
Com
o progresso tecnológico a todo vapor, observamos
cada vez mais que os nossos clientes têm se mostrado
mais ativos em relação a seus tratamentos.
Há algumas décadas, o paciente colocava a própria
saúde nas mãos do médico, em quem confiava
cegamente, sem nada questionar.
Contrariamente,
nos dias de hoje, não raramente atendemos
pessoas que já vêm inclusive com o diagnóstico
pronto. Outros, querem entender tudo o que têm, o que
pode ser feito, os riscos que correm, com uma postura interativa
e participante, que na maioria das vezes contribui para uma
melhor relação médico paciente.
É claro que sabemos que muitas crianças são
bastante atentas e preocupadas com tudo o que lhe diz respeito.
E que quando o especialista deixa um “espaço” para
que ela se “coloque”, quase sempre teremos uma
criança colaboradora e agente ativa do seu tratamento.
Nesses casos, vemos que tal postura aumenta a auto-estima
e a autoconfiança da criança, sendo um ponto
favorável à evolução do tratamento,
apesar de, infelizmente, termos situações que
impossibilitam muitas crianças de participarem mais
e de compreenderem melhor aquilo que lhes causa sofrimento,
como baixa condição financeira, estruturas
familiares caóticas e outras.
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