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TDAH E O INSUCESSO NA ESCOLA
Entre
o ensinante e o aprendente abre-se um campo de diferenças
onde se situa o prazer de aprender. O ensinante entrega algo,
mas para poder apropriar-se daquilo o aprendente necessita
inventá-lo de novo. É uma experiência
de alegria, que facilita ou perturba, conforme se posiciona
o ensinante. Ensinantes são os pais, os irmãos,
os tios, os avós e demais integrantes da família,
como também os professores e os companheiros na escola.
É
importante analisar, para tanto, do que a família
exatamente se queixa quando procura um psicopedagogo. Ela
pode vir ao consultório porque está exausta
e precisa de ajuda, ou porque a escola pediu uma avaliação,
ou ainda, porque a psicóloga quer uma visão
psicopedagógica para traçar uma estratégia
de abordagem junto à escola, ou ainda porque o neurologista
mandou. Para cada demanda, lê-se uma necessidade diferente
e uma possibilidade de envolvimento mais ou menos comprometida
com a criança e seu desenvolvimento. É diferente
se a queixa se concentra na preocupação dos
pais com o futuro de seus filhos, ou se a queixa tem por
interesse o bom andamento das avaliações escolares.
Posto dessa forma interessa-nos não apenas se a criança
sofre de um transtorno, um déficit ou uma síndrome,
mas também quem são os ensinantes dessa criança.
Esse dado será fundamental para traçarmos um
plano de ação que se estenda à família, à escola
e aos outros profissionais que podem estar envolvidos no
processo.
Os pontos em comum
Tem sido muito comum nos consultórios de psicopedagogia
a queixa de pais que verdadeiramente desabam, denunciando
estarem exaustos com a rotina estressante que seus filhos
lhes impõem. Discorrem as várias estratégias
já tentadas com o objetivo de atendê-los em
suas necessidades e agitação, todas elas, na
maioria das vezes, ineficazes. Os pais compreendem o que
acontece com seus filhos e ficam perplexos diante do tumultuo
que causam em suas famílias. À medida que se
estabelece a anamnese, é comum os pais se referirem
ao transtorno do Déficit de Atenção/
Hiperatividade (TDAH).No entanto, junto com a demonstração
de conhecimento do fato, aparece o discurso de que seus filhos
são inteligentes, que quando lhes interessa prestam
atenção, que eles aprendem só o que
não é para aprender, que eles esquecem as matérias
da escola, mas lembram com detalhes das regras de um game.
Enfim, evidencia-se a dúvida em relação
ao transtorno por entenderem que, se tivessem o transtorno
(TDAH) teriam de ser menos inteligentes e menos competentes
de forma geral.
O mesmo acontece com os professores. Quando procurados para
saber o motivo pelo qual encaminharam ou deram apoio para
a procura de um diagnóstico psicopedagógico
de determinado aluno, é comum revelarem que ficam
na dúvida entre um transtorno de Déficit de
Atenção e o perfil de preguiçoso. Muitos
professores entendem o comportamento de uma criança
agitada e dispersa como falta de vontade para estudar, para
fazer as lições, terminar uma prova, etc. Quando
tentamos tipificar o comportamento, os professores afirmam
que quando eles desejam, fazem; que eles não param
quietos, no entanto ficam horas e horas na frente do computador
ou tocando um instrumento, não decoram a tabuada,
mas sabem cantar uma música inteira. Alguns professores
reclamam que esses alunos são terríveis, não
param quietos e não respeitam regras e contratos disciplinares,
porém sabem todas as regras do futebol. Percebem que
a criança é inteligente para algumas coisas
e muito ágil mentalmente para tudo que lhes interessa,
menos para os estudos.
Ouvindo tanto os pais quanto os profissionais da escola o
que se percebe é o cansaço que essas crianças
causam em seus pais e professores e a dúvida de como
eles, sendo tão ágeis e inteligentes, não
conseguem prestar atenção e desenvolver, com
sucesso, atividades corriqueiras do dia-a-dia, que são
propostas tanto pela família quanto pela escola, tais
como arrumar o quarto, fazer as lições escolares,
obedecer a regras combinadas, dentre outras. A incapacidade
de prestar atenção ou de ficar quieto leva
os adultos que convivem com essas crianças a considerá-las
malandras e, freqüentemente, são rotuladas de
irresponsáveis, malcriadas, endiabradas, avoadas,
surdas e até mesmo, pouco inteligentes. O rol costuma
ser de adjetivos pejorativos e, como resultado, os pais e
educadores vivem conflitos entre sentirem-se impotentes diante
da criança e a vontade de ajudá-los. Não
percebem o esforço que essas crianças fazem
para obter sucesso em suas tarefas e que se fazem coisas
com aparente facilidade é porque estavam altamente
estimulados para aquela investida.
O
Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade
Esse transtorno tem por característica essencial “um
padrão persistente de desatenção e/ou
hiperatividade-impulsividade, mais freqüente e grave
do que aquele tipicamente observado nos indivíduos
em nível equivalente de desenvolvimento”. (Manual
de Transtornos Mentais – DSM)
Quando a criança apresenta problemas de convívio
social, de rendimento escolar, ou ambos, fica mais fácil
identificá-los e encaminhá-la para atendimento.
O diagnóstico é clínico e caracteriza-se
por duas formas: predomínio do padrão hiperativo-impulsivo
e tipo predominantemente desatento, embora possa haver o
tipo combinado, que apresenta características dos
dois grupos.
Para ser considerado portadora de TDAH é preciso que
a criança apresente os sintomas há mais de
seis meses e que eles apareçam em situações
diversas.[1] A criança predominantemente hiperativa-impulsiva
apresenta inquietação, não parando sentada
ou quieta - não se mantém sentada por muito
tempo, cai da cadeira, se mexe mais do que o necessário,
anda mais do que o necessário, fala excessivamente,
não consegue esperar que o outro termine o que está falando,
tem muita dificuldade em permanecer em silêncio, responde
a perguntas antes que elas sejam formuladas completamente,
age como se fosse “movida a motor” e tem dificuldade
para esperar sua vez.
A predominantemente desatenta tem dificuldade para prestar
atenção, esquece coisas rotineiras ou deixa
de fazer coisas importantes, parece não ouvir quando
se fala com ela, tem dificuldade de organização
e não enxerga detalhes. Freqüentemente perde
objetos e não suporta atividades que requeiram esforço
mental prolongado.
Ambas podem, ainda, apresentar dificuldade para terminar
uma tarefa, para respeitar limites e regras, para dormir
e para relacionar-se. Algumas crianças não
suportam frustrações e, por conseqüência,
frustram-se muito; outras não avaliam o perigo, não
aprendem com os erros do passado e são difíceis
de agradar. Há, também, as que são agressivas,
inflexíveis e com percepção sensorial
baixa. Muitas crianças têm dificuldades com
a aprendizagem e com as tarefas escolares.
O
diagnóstico:
como avaliar?
Para se chegar a um diagnóstico satisfatório, é necessário
que a criança apresente pelo menos seis dos sintomas
acima relacionados, em ambientes diferentes como casa, escola,
clube, casa de parentes, etc., e que os sintomas tenham aparecido
antes dos sete anos de idade.
O encaminhamento para um neuropediatra é imprescindível
para isolar outras possibilidades diagnósticas como
depressão, ansiedade, conduta destrutiva, e outros
diagnósticos. Paralelamente ao exame médico,
busca-se entender as queixas da família e as queixas
da escola. Algumas crianças já têm atendimento
psicológico, outras necessitarão desse atendimento.
Precisamos tipificar a dinâmica familiar da criança:
a qualidade das relações parentais e filiais,
o exercício da autoridade, a divisão de tarefas
domésticas, a circulação do conhecimento,
o lugar de cada um na família, assim como é imprescindível
conhecer o seu contexto educacional: o colégio e a
metodologia adotada por ele, as exigências acadêmicas,
o tipo de atividades propostas pelos professores, como trabalham
os conteúdos, o tempo destinado a cada aula, como
lidam com a indisciplina e o tipo de avaliação
de desempenho escolar.
Como o TDAH é considerado um distúrbio biopsicossocial
que atinge de 3% a 5% as crianças em idade escolar,
e preferencialmente meninos, o seu conhecimento e a existência
de um plano estratégico construído para cada
criança é diferencial determinante no tratamento.
Muitas famílias acreditam que, com a maturidade, o
déficit desapareça e optam por aguardar “que
essa fase passe”. No entanto, o mais comum é persistir
a dúvida, apesar do diagnóstico quanto à forma
mais eficaz de trabalhar com a criança, ou até mesmo,
duvidar da veracidade das informações e dos
sintomas listados, “Se estivesse interessado, lembraria....” ou
ainda, “Isso para mim é pura irresponsabilidade...”
O diagnóstico é clínico e não
existem exames laboratoriais para detectar o déficit,
portanto, é importantíssimo um conjunto de
observadores atentos e criteriosos voltados ao objetivo de
avaliar cada criança em suas especificidades.
É
ponto de concordância que avaliar é necessário
para que possamos entender e atender com competência
a criança com TDAH, no entanto, não é raro
a escola ou a família receber o diagnóstico
e não saber o que fazer com ele. Não basta
termos o diagnóstico em mãos, é necessário
avaliarmos a situação sob o ponto de vista
biológico, social e acadêmico. É importante
destacar que a TDAH tende a perdurar ao longo da vida, ou
seja, ela pode ser controlada, mas os adolescentes e adultos
também sofrem as suas manifestações,
principalmente se não forem tratadas.
No diagnóstico clínico, o neuropediatra dará as
informações da situação orgânica
da criança, mas geralmente a queixa aparece por uma
necessidade escolar ou de relacionamento.
Nessa perspectiva, a avaliação visa reorganizar
a vida escolar e doméstica da criança e do
adolescente e, somente neste foco ela deve ser encaminhada.
Vale dizer que fica vazio o pedido de avaliação
apenas para justificar um processo que está descomprometido
com o aluno e com sua aprendizagem. “De fato, se pensarmos
em termos bem objetivos, a avaliação nada mais é do
que localizar necessidades e se comprometer com sua superação” (VASCONCELOS,
2002, p 83 ).
Devemos ter muito cuidado ao avaliarmos uma criança,
pois a hiperatividade está “em moda”.
Todas as crianças agitadas são chamadas de
hiperativas, o que, na grande maioria das vezes, não é verdade.
A falta de limites e da presença de pais e professores
educadores e disciplinadores pode vir a confundir e a rotular,
inadequadamente, crianças e adolescentes que, de fato,
não precisam de medicamentos, mas da presença
de adultos comprometidos com sua formação e
desenvolvimento.
O insucesso escolar
As crianças com TDAH, em sua maioria, até sabem
o que deveriam fazer, mas devido à inabilidade de
controlarem-se, não agem como sabem que deveriam – agem
antes de pensar! Vale dizer que elas sabem que deveriam prestar
atenção na aula, mas não prestam, levantam-se
apesar de saberem que não deveriam levantar.
O TDAH não afeta a inteligência da criança,
mas a sua aprendizagem. Na maioria dos casos, as crianças
e adolescentes tem uma boa ou até meso excelente condição
de aprendizagem, fato que se dissocia das produções
escolares que chegam a ser medíocres, em muitas situações.
Na escola, por exemplo, se é dado um exercício
com uma seqüência de operações,
muito possivelmente ela consiga fazer as duas primeiras e
depois não veja as próximas, ou esqueça
algum sinal. Na leitura de um enunciado, ao chegar ao final
não lembra do que leu e afirma não ter entendido,
ou ainda, esquece o que leu. Se for impulsiva, responde algo
que lhe vem na mente naquele momento. Ao ler um livro, depois
de ter lido umas dez páginas não sabe do que
está tratando o livro. Em um teste escrito, poderá responder às
questões da primeira página e entregar sem
perceber que o teste continuava no verso da folha. Basta
um cachorro latir lá fora para essa a criança
ou adolescente perder a sua concentração. É o
tipo de criança que, quando se dá conta, já fez
o que prometeu não fazer, já perdeu a explicação
que precisava tanto, já brigou, enfim...
Em casa necessitam de ajuda para fazer as lições,
têm suas coisas em desordem, não sabem o que é para
fazer ou estudar, esquecem a agenda na escola, levantam-se
para pegar um copo de água e não voltam para
suas tarefas...
Nesse cenário, o insucesso escolar fica vinculado à compreensão
que se tem do papel da escola. Se entendermos que o papel
da escola é construir conhecimento com “todos” os
alunos, certamente os profissionais da escola procurarão
formas de promover aprendizagens. A rigidez da escola pode
gerar, além do fracasso escolar e do sentimento de
incapacidade, uma situação emocional desfavorável à aprendizagem,
gerando baixa auto-estima e desestimulando e dificultando,
ainda mais, a aprendizagem da criança ou do adolescente.
Não é raro um aprendiz apresentar-se dizendo: “Sou
burro para os estudos.”Igualmente importante e, talvez
até mais determinante, é a rigidez da família
ao não aceitar seu filho como ele é e entender
que cada um de nós tem suas dificuldades e pontos
a serem superados. Respeitar e apoiar o aprendiz em seus
propósitos de desenvolver-se é fundamental
no caso das crianças hiperativas.
Como intervir?
Não basta termos um diagnóstico adequado e
nem a escola propor-se a adequar estratégias metodológicas
para que a criança ou o adolescente consigam aprender
e se instrumentalizar academicamente.
É
importante reunir, para conversarem, os profissionais que
atendem a criança, a família e os professores
e coordenadores pedagógicos da escola que freqüenta,
para que seja traçado, para cada caso, uma linha de
ação em termos de responsabilidades da escola,
da família e dos profissionais que lidam com a criança.
O que deve permear essa reunião é a coerência
entre as diferentes propostas e possibilidades concretas
de se realizar o que se propõe.
A escola assume o papel pedagógico do processo, no
entanto, respaldada pelos profissionais que atendem a criança
e validado pelos pais. Os pais montam estratégias
domésticas, orientados pelos profissionais e validados
pelos professores da escola. E os profissionais traçam
objetivos que atendam às demandas dos pais e dos professores.
Todos devem se reunir sistematicamente para avaliar a evolução
e reprogramar estratégias.
Para cada criança ou adolescente deve-se estabelecer
uma estratégia diferente que esteja em consonância
com os objetivos e queixas dos pais e professores. Para cada
escola um tipo de atendimento e de trocas. Com isso queremos
dizer que não existe receita e nem uma proposta de “comece
por aqui”, mas uma forma de entender e atender a cada
uma das crianças, individualmente.
Entendemos como o mais importante, a disposição
dos pais em modificar comportamentos e hábitos, ou
seja, sair da queixa, entendendo que todos devem mudar juntos
para continuarem sendo família. Também é primordial
a escola abrir-se para esse “multidiálogo” até conseguir
acertar uma forma de atingir a criança e motivá-la
a trabalhar. Certamente que não se acerta de primeira,
que é preciso persistir, conversar, tentar novamente,
reavaliar e continuar estudando.
Entendemos que o grande objetivo da escola e da educação é construir
sujeitos aprendizes, autores de sua vida e resilientes para
promoverem aprendizagens e enfrentarem suas dificuldades.
Temos de nos reunir, em posturas de parceria de modo que
todos se voltem ao ajustamento de procedimentos que viabilizem
o desempenho acadêmico e social das crianças
que apresentem dificuldades com sua aprendizagem. Entendo
que uma família ou uma escola que tem uma criança
ou adolescente com TDAH não tem um problema, mas uma
situação para administrar. Porém, se
não for encarada com seriedade, competência
e sensibilidade, aí sim, pode vir a tornar-se um transtorno
em suas vidas.
Urge
passar à ação, assumindo a idéia
de que o desenvolvimento de capacidades de desenvolvimento
no sentido de tornar as pessoas e as organizações
mais resilientes é uma prioridade na formação
do novo cidadão. Mais é um imperativo social
e comunitário não só a nível
local, mas também regional e global, planetário.
O mundo está a ficar demasiado rígido e intolerante,
autoritário, ditaturial, para defender os interesses
egoístas de um número cada vez mais reduzidos
de privilegiados face à grande maioria dos que vivem
com dificuldades, desprotegidos, e, até, em extrema
pobreza, miséria e outras formas de exclusão.
(Tavares, 2001, p.63)
É nesse quadro que proponho a avaliação
psicopedagógica e o planejamento de uma intervenção
multidisciplinar, pautada no compromisso de promover desenvolvimento,
auto-estima e condições de maturidade emocional
para resolver problemas e amadurecer o ser cognoscente.
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