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Transtorno
Bipolar
O
transtorno bipolar é uma doença que se caracteriza pela
alternância de humor: ora ocorrem episódios
de euforia (mania), ora de depressão, com períodos
intercalados de normalidade. Com o passar dos anos os episódios
repetem-se com intervalos menores, havendo variações
e existindo até casos em que a pessoa tem apenas um
episódio de mania ou depressão durante a vida.
Apesar de o Transtorno Bipolar do Humor nem sempre ser facilmente
identificado, existem evidências de que fatores genéticos
possam influenciar o aparecimento da doença.
Muitas
vezes o paciente não percebe que tem esta
enfermidade, e é necessário que familiares
e amigos estejam bem informados, e saibam reconhecer alguns
dos seus sintomas para poderem encaminhá-lo a um tratamento
adequado A pessoa com Transtorno Bipolar do Humor pode apresentar
grandes oscilações no seu estado de humor,
atrapalhando muito o andamento de sua vida no trabalho, nas
relações afetivas e familiares.
A
euforia (ou mania) é um estado de exaltação
do humor, com aumento de energia, sem qualquer relação
com o momento que o indivíduo está vivendo.
Nesse período do transtorno bipolar, o paciente não
está deprimido nem alegre por motivo especial, mas
apresenta humor eufórico ou irritável.
Em geral, a mudança do comportamento na euforia é súbita,
mas o indivíduo não percebe sua alteração
ou a atribui a algum fator do momento. O senso crítico
e a capacidade de avaliação objetiva das situações
ficam prejudicados ou ausentes.
Este
texto foi produzido pelos pacientes da ABRATA sob supervisão
do Conselho Científico.
COMO
TRATAR ALGUÉM COM TRANSTORNO BIPOLAR?
•
Orientação Psicoeducacional
• Tratamento Medicamentoso
• Eletroconvulsoterapia
•
Tratamentos Psicológicos
•
Problemas que comprometem o resultado Terapêutico
•
Como a família e amigos podem ajudar?
• Como o paciente pode se ajudar?
• Mensagem Final
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COMO TRATAR ALGUÉM COM TRANSTORNO BIPOLAR?
O
aparecimento do transtorno bipolar se deve a uma combinação
de fatores, em que aspectos biopsicosociais desempenham papel
importante no desencadeamento da doença. Assim sendo,
tratamentos medicamentosos, orientação sobre
a doença e psicológicos estão indicados.
O segredo está no encontro da combinação
ideal para cada paciente.
ORIENTAÇÃO
PSICOEDUCACIONAL
Se
o remédio não for tomado, de nada adianta
receitá-lo. Para aumentar o sucesso do tratamento é preciso
esclarecer o paciente e familiares sobre os sintomas da doença,
suas causas, como ela pode seguir durante a vida da pessoa,
quais os riscos, que atitudes tomar durante a depressão
e na mania, como se preparar para as recorrências e
assim por diante. Alguns aspectos são fundamentais.
Em primeiro lugar, estará sendo tratado o diagnóstico
de transtorno bipolar, não apenas sintomas depressivos
ou eufóricos. Levando em consideração
que a doença é para a vida toda, podendo hibernar
por meses ou anos, o tratamento deve ser planejado para atender
as necessidades a curto, médio e longo prazos.
Na
orientação acerca da doença também
deve ser abordado o preconceito. Resolver dúvidas
ajuda a diminuí-lo, mas só o tempo poderá eliminá-lo
de vez. Infelizmente pacientes e famílias sofrem durante
anos acumulando ressentimentos, queda do poder aquisitivo,
atraso na formação, antes da aceitação
do diagnóstico e do tratamento.
Outra
questão a ser aprendida é como lidar
com uma nova crise. Cuidar da decepção, da
frustração, da desesperança e além
disso prevenir conseqüências prejudiciais são
fundamentais na recuperação.
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TRATAMENTO MEDICAMENTOSO
Existem
vários tipos de substâncias usadas
no tratamento do transtorno bipolar, dependendo do estado
em que o paciente se encontra: estabilizadores do humor,
antidepressivos, antipsicóticos e tranqüilizantes.
Para tratar uma crise de depressão pode ser necessário
o uso de antidepressivos, se os estabilizadores do humor
não forem suficientemente eficazes; numa (hipo)mania
apenas estabilizadores do humor podem resolver ou se adiciona
antipsicóticos e tranqüilizantes. Estes são
os tratamentos de fase aguda.
Quando
a pessoa já teve pelo menos 3 crises ou uma
muito séria e tem o diagnóstico de transtorno
bipolar do humor, é aconselhável não
adiar o tratamento de manutenção, para evitar
ou reduzir a gravidade de novos períodos de doença.
Os estabilizadores do humor podem bastar para controlar uma
(hipo)mania ou estado misto, mas são os remédios
ideais para o tratamento de manutenção ou preventivo
de novos episódios do transtorno bipolar.
É importante lembrar que mesmo a curto prazo, o efeito
dos medicamentos na depressão, na (hipo)mania ou no
estado misto leva pelo menos duas a quatro semanas para ser
significativo. A melhora completa pode levar alguns meses
e depois disso é necessário manter as medicações
usadas na fase aguda da doença por mais algumas semanas
ou meses, dependendo da gravidade. Depois de melhorar por
completo, não apenas parcialmente, o paciente segue
para a fase de manutenção.
Nesta
fase normalmente a pessoa se sente bem e corre o risco
de descuidar do rigor no tratamento medicamentoso. Da mesma
maneira como acontece na hipertensão arterial ou no
diabetes, a pessoa se sente bem por estar tomando remédios.
Ela não pode parar sem o consentimento do médico
achando que está curada.
Felizmente
dispomos hoje em dia de vários remédios
que podem controlar o transtorno bipolar do humor, de tal
modo que se a pessoa não puder tomar algum deles ou
não se beneficiar o suficiente, é possível
trocá-los ou fazer combinações entre
eles. Serão mencionados somente os disponíveis
no Brasil.
Estabilizadores
do humor são os remédios mais
importantes e devem ser usados a partir do diagnóstico
de transtorno bipolar. Controlam o processo de ciclagem de
um episódio a outro, reduzindo a quantidade de depressões
e (hipo)manias e a gravidade delas. Eles variam entre si
no efeito antidepressivo e antimaníaco. Os mais estudados
e bem conhecidos são o carbonato de lítio,
a carbamazepina e o ácido valpróico. Com exceção
do lítio, todos eles são também usados
como anticonvulsivantes (remédios para tratar epilepsia).
-
lítio (Carbolitium“,
Litiocar, Carbolim)
-
carbamazepina (Tegretol“)
-
oxcarbazepina (Trileptal“)
- ácido valpróico (Depakene“)
-
lamotrigina (Lamictal“)
-
gabapentina (Neurontin“)
-
topiramato (Topamax“)
Antidepressivos
são o tratamento indicado para as
depressões. No paciente com transtorno do humor bipolar
o médico primeiro introduz o estabilizador do humor
e se não melhorar associa um antidepressivo. Esta
cautela reduz o risco de ciclagem para euforia, que os antidepressivos
podem desencadear. Se isso acontecer, demorará mais
para controlar a doença a longo prazo.
-
tricíclicos e heterocíclicos
-
por exemplo, Tofranil“, Anafranil“, Tryptanol“,
Pamelor“, Ludiomil“.
- inibidores da monoaminoxidase (IMAOs):
-
por exemplo, Parnate“, Stelapar“, Aurorix“.
-
inibidores seletivos de recaptação de serotonina
(ISRS)
-
por exemplo, Prozac“, Cipramil“, Aropax“,
Zoloft“, Luvox“.
- novos antidepressivos
-
por exemplo, Efexor“, Remeron“, Stablon“,
Prolift“, Zyban“.
Antipsicóticos são medicamentos de efeito
antimaníaco e antipsicótico. Podem ser usados
durante um episódio de depressão, mania ou
estado misto se houver sintomas psicóticos.
-
de primeira geração - por exemplo, Haldol“,
Amplictil“, Stelazine“, Neuleptil“, Melleril“,
Navane“.
- novos antipsicóticos - por exemplo, Risperdal“,
Leponex“, Zyprexa“, Seroquel“.
Tranqüilizantes representam substâncias com ação
hipnótica ou tranqüilizante, que devem ser usados
temporariamente, enquanto os estabilizadores do humor não
fizerem efeito.
- por exemplo, Valium“, Rivotril“, Lorax“,
Lexotan“, Stilnox“.
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ELETROCONVULSOTERAPIA (ECT)
A
ECT é um dos tratamentos antidepressivos e antimaníacos
mais eficazes, indicado nos extremos da mania e da depressão,
para prevenir exaustão ou suicídio, pelo rápido
tempo de ação. Inclui aplicar pequenas correntes
de energia durante rápida aplicação
de anestesia geral, para obter uma convulsão de alguns
segundos de duração. Jamais deve ser considerado
tratamento de última escolha, prolongando inutilmente
o sofrimento pela falta de melhora com os medicamentos. É o
mais seguro em gestantes e idosos e pode salvar a vida do
paciente.
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TRATAMENTOS
PSICOLÓGICOS
O
tratamento medicamentoso é básico, mas o
transtorno bipolar não é meramente um problema
bioquímico, também psicológico e social.
Entrar em contato com os sintomas do transtorno bipolar causa
sofrimento e pode ser traumatizante para o paciente e a família.
O medo de como isso vai afetar sua vida, o preconceito, a
aceitação do diagnóstico requerem atenção
psicológica. Para aceitar é necessário
conhecer a doença a ponto de diferenciar seus pensamentos
e sentimentos e fazer decisões baseado em conhecimento
e não em emoções, como medo ou raiva
da doença. Tratamentos psicológicos procuram
fornecer boas informações, orientação
e motivação em um ambiente de apoio e confidencial.
Há vários tipos, dependendo da necessidade
específica de cada paciente, como psicoterapias individual
ou grupal, terapia familiar ou conjugal e orientação
psicoeducacional, como mencionado anteriormente.
Durante
o curso do tratamento o paciente costuma enfrentar recorrências, pois o manejo medicamentoso pode demorar
até ser acertado. Tais experiências trazem desapontamento,
dúvidas sobre o tratamento, sentimentos de culpa e
de revolta. Na psicoterapia e na orientação
sobre a doença é possível encontrar
esclarecimento e apoio necessários para superar cada
novo obstáculo que a doença impõe.
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PROBLEMAS
QUE COMPROMETEM O RESULTADO TERAPÊUTICO
A
magnitude das conseqüências depende da combinação
de uma série de fatores: idade de início (quanto
mais cedo, mais compromete os estudos e a formação
profissional), gravidade dos sintomas, quantidade de episódios,
tratamento adequado, aceitação do tratamento,
apoio familiar, associação com alcoolismo ou
abuso de drogas (praticamente impossibilita o tratamento),
associação com outras doenças, características
de personalidade (fragilidade, imaturidade, dependência),
problemas persistentes considerados sérios pela pessoa.
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COMO
A FAMÍLIA E AMIGOS PODEM AJUDAR?
Antes
de mais nada é necessário conhecer a
doença e o tratamento do transtorno bipolar do humor.
Mesmo assim, cada novo episódio representa um desafio,
porque se misturam problemas individuais, questões
pendentes, características de cada família.
O
apoio ao tratamento é fundamental para ajudar o
paciente em momentos difíceis a manter os medicamentos
na dose certa e no horário prescrito. Bastam alguns
dias sem tomar a medicação ou tomando menos
que necessário para que entre em nova crise. Compreender
os sintomas não como seu jeito de ser, mas como doença,
alivia muito e reduz o sentimento de culpa no deprimido.
O doente em euforia requer firmeza e paciência, porque
o relacionamento se torna mais desgastante. Ele pode recusar
as orientações da família, alegando
que agora toda vez que se sentir feliz e de bem com a vida
logo pensam que está em mania. A intervenção
junto ao médico antes que perca a autocrítica
previne conseqüências piores ou eventual internação.
-
se os medicamentos estiverem causando efeitos colaterais
muito
incômodos e o paciente mencionar que quer parar
com tudo isso, o médico deve ser informado;
-
detectar com o paciente os primeiros sinais de uma recaída;
se ele considerar como intromissão, afirmar que é seu
papel auxiliá-lo;
-
falar com o médico em caso de suspeita de idéias
de suicídio e desesperança;
-
compartilhar com outros membros da família o cuidado
com o paciente;
-
estabelecer algumas regras de proteção durante
fases de normalidade do humor, como retenção
de cheques e cartões de crédito em fase de
mania; auxiliar a manter boa higiene de sono;
programar atividades antecipadamente.
-
mesmo depois da melhora, há um período de
adaptação e desapontamento; é importante
não exigir demais e não superproteger; auxiliá-lo
a fazer algumas coisas, quando necessário;
-
evitar chamar o paciente de louco ou demonstrar outros
sinais
de preconceito, que favorecem o abandono do tratamento;
tratá-lo normalmente e apontar sintomas com carinho;
-
aproveitar períodos de equilíbrio para diferenciar
depressão e euforia de sentimentos normais de tristeza
e alegria.
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COMO O PACIENTE PODE SE AJUDAR?
A
pessoa mais interessada no próprio bem-estar é quem
está doente. O paciente com transtorno bipolar do
humor tem uma doença que costuma durar a vida toda,
que se mantém sob controle com tratamento adequado.
Cabe a ele o esforço de manter o tratamento: é ele
quem toma os medicamentos - ou não. Ninguém
pode forçá-lo, a não ser em situações
que ponham em risco a sua segurança ou a de outros.
Portanto, se você é portador do transtorno bipolar:
-
comprometa-se com o tratamento - discuta dúvidas
com seu médico, eficácia dos estabilizadores
do humor, intolerância a efeitos colaterais, etc.;
-
mantenha uma rotina de sono; mudanças no sono ou
redução do tempo total de sono podem desestabilizar
a doença; converse com seu médico, caso precise
mudar o hábito de dormir;
- evite álcool e drogas; além de interagirem
com algumas medicações, também agem
no cérebro, aumentando o risco de desestabilização
da doença; se tiver insônia ou inquietação,
não se automedique - converse com seu médico;
-
evite outras substâncias que possam causar oscilações
no seu humor, como café em excesso, drinques, antigripais,
antialérgicos ou analgésicos - eles podem ser
o estopim de novo episódio da doença;
-
enfrente os sintomas sem preconceito - discuta com seu
médico
sobre ele;
-
se não estiver podendo trabalhar, "não
queime o filme" - é mais sensato tirar uma licença,
conversar com a família ou com o patrão, e
se permitir convalescer;
-
lembre-se: você está bem por tomar a medicação;
se parar de tomá-la, mesmo após 5 ou 10 anos,
os sintomas podem voltar sem prévio aviso; é preciso
manter-se alerta para o aparecimento dos primeiros sinais,
como insônia e irritabilidade;
-
há indícios de que quanto mais crises da
doença a pessoa tiver, mais ela continuará tendo,
por isso, procure participar ativamente do tratamento;
-
descubra seus sintomas iniciais de nova crise depressiva
ou maníaca - tome nota e avise imediatamente seu médico;
-
aproveite períodos de bem-estar para redescobrir
como você de fato é; como são os sentimentos
de tristeza, alegria, disposição e como você lida
com seus problemas;
-
quanto mais você conhecer a doença, melhor
você poderá controlar os sintomas no período
inicial; proteja-se: evite estímulos de risco em potencial,
como decisões importantes, relações
sexuais sem preservativos, projetos ambiciosos, gastos -
ponha seus planos no papel e espere para executá-los
quando se reequilibrar; procure canalizar hiperatividade
ou idéias negativas para atividade física ou
manual; se estiver deprimido, dê-se um empurrão,
pois a iniciativa está em baixa;
-
procure e aceite ajuda da família e dos amigos
quando perceber que não consegue se cuidar sozinho.
- é comum querer parar o tratamento, ou porque vai
tudo bem, ou porque não está dando certo; procure
conversar com outras pessoas com o mesmo problema, que já passaram
por isso; lembre-se de como era seu sofrimento; discuta com
a família se valeria a pena buscar uma segunda opinião
sobre o diagnóstico e o tratamento.
Temporariamente
o paciente pode ficar inapto a se tratar adequadamente.
Nestas fases a intervenção amiga
da família é fundamental.
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MENSAGEM FINAL
Há quem considere que o transtorno bipolar do humor "é como
um animal selvagem em sua mente, pronto para escapar a qualquer
momento", e que precisa de grades fortes para ser contido. Às
vezes a porteira se abre um pouco e ele volta a ameaçar
- o importante é não deixá-lo à solta.
A luta a ser travada com esse animal é longa e difícil,
mas vale a pena - vale o resgate da própria vida.
Compartilhar
essas lutas com outros pacientes e familiares pode servir
de exemplo e motivar quem está a ponto
de desistir de si mesmo. São bem-vindas iniciativas
como as da ABRATA (Associação Brasileira de
Transtornos Afetivos), que auxilia no amparo aos pacientes
através da própria experiência com o
transtorno afetivo bipolar.
Copyright © 2005-2006
Todos os direitos reservados a Dra. Evelyn Vinocur
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