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Transtorno
Obsessivo Compulsivo (TOC)
CONSELHO AOS PAIS E SEUS FAMILIARES
INTRODUÇÃO
Se
no passado os transtornos obsessivos compulsivos (TOC)
eram
considerados como problemas psiquiátricos raros
e impossíveis de tratar, hoje admite-se que, na realidade,
trata-se de um problema comum, que afeta cerca de 2 a 3%
da população geral. Com base nestas cifras,
estima-se que mais de 100 milhões de pessoas no mundo
inteiro sofrem de Transtornos Obsessivos Compulsivos.
Nossa perspectiva mudou com a recente descoberta de que
esses transtornos reagem a um determinado grupo de medicamentos.
Agora,
não somente existe um tratamento para inúmeras
pessoas que sofrem de Transtornos Obsessivos Compulsivos,
mas também o fato de atualmente a ênfase não
mais ser colocada sobre causas psicológicas mas sim
sobre a química cerebral.
Essa é a razão pela qual a origem bioquímica
desses transtornos tem sido objeto de várias pesquisas
durante os últimos anos. Este guia relata a natureza
química desses transtornos freqüentes, e agora
curáveis, bem como seu diagnóstico. O tema
aborda os novos métodos do tratamento e propõe
conselhos mais gerais aos pacientes, aos seus familiares
e aos amigos mais próximos.
O QUADRO CLÍNICO DOS TRANSTORNOS OBSESSIVOS COMPULSIVOS
PREVALÊNCIA
A
prevalência dos Transtornos Obsessivos Compulsivos
na população geral é de 2 a 3%. Acredita-se
atualmente que, depois da depressão, os Transtornos
Obsessivos Compulsivos constituem o segundo problema mais
freqüente em psiquiatria. Estima-se que sua prevalência
seja mais elevada que a da esquizofrenia, as síndromes
do pânico ou os problemas de anorexia.
A
prática clínica
revela que 1 em cada 50 pessoas sofre de Transtornos Obsessivos
Compulsivos.
Os
Transtornos Obsessivos Compulsivos afetam igualmente homens
e mulheres
de todas as idades e de todos os grupos étnicos.
Eles se instalam durante a adolescência ou no início
da idade adulta.
No
passado, os pacientes esperavam às vezes 7 anos
após o início dos sintomas para procurar ajuda
médica, e somente se os sintomas fossem graves o suficiente
para afetar sua vida social e seu trabalho.
É importante modificar essa evolução
que implica em demasiado sofrimento, tornando os pacientes
conscientes do diagnóstico de Transtorno Obsessivo
Compulsivo e do fato de agora existir um tratamento para
esses transtornos.
PERGUNTA/ RESPOSTA
Pergunta:
Por que somente recentemente reconheceu-se a característica
progressiva dos Transtornos Obsessivos Compulsivos?
Resposta: Os pacientes que sofrem de Transtornos Obsessivos
Compulsivos são em geral discretos quanto aos seus
sintomas obsessivos e compulsivos; eles preferem ocultá-los
a procurar ajuda.
Os
sintomas obsessivos compulsivos são habitualmente
egodistônicos, ou seja, o paciente reconhece que eles
não tem sentido ou que são exagerados. Portanto,
eles sentem vergonha. Em outros pacientes, envolvendo um
grande número de casos, as obsessões têm
um caráter de dano infligido a outros; ela é,
portanto, mais difícil de ser revelada.
Pergunta: Nos pacientes que sofrem de Transtornos Obsessivos
Compulsivos qual é o risco de sofrerem outros tipos
de transtornos?
Resposta: Aproximadamente 70 a 80% dos pacientes afetados
por Transtornos Obsessivos Compulsivos também sofrem
de depressão. Vários deles poderiam ser tratados
de depressão ou de outros fenômenos secundários
aos Transtornos Obsessivos Compulsivos, tais como uma irritação
da pele, sem revelarem a origem dos seus problemas, salvo
se lhe fossem feitas perguntas específicas. É,
portanto, muito útil discutir os pensamentos obsessivos
ou necessidades compulsivas com um médico.
AS CARACTERÍSTICAS DOS TRANSTORNOS OBSESSIVOS COMPULSIVOS
Os
Transtornos Obsessivos Compulsivos são uma doença
crônica e debilitante, caracterizada por pensamentos
invasores, recorrentes, não desejados (obsessões)
que provocam uma ansiedade e/ou comportamentos irracionais,
repetitivos e do tipo ritual, que os pacientes se sentem
obrigados a adotar (compulsões).
FREQÜÊNCIA DOS SINTOMAS OBSESSIVOS E COMPULSIVOS
OBSESSÕES
Contaminação 45%
Dúvida patológica 42%
Asco de funções fisiológicas 36%
Necessidade de ordem 31%
Agressividade 28%
Obsessões sexuais 26%
Várias Obsessões 60%
COMPULSÕES
Verificar 63%
Limpar 50%
Calcular 36%
Fazer perguntas ou confessar-se 31%
Simetria, precisão 28%
Acumular 18%
Várias compulsões 48%
Extraídos de Rasmussen S.A. and Eisen J.L.: J.Clin.
Psychiatry 1992; 53 (4, suppl.): 4-10
Em geral, os Transtornos Obsessivos Compulsivos se instalam
ao longo dos anos, em cujo curso os sintomas do paciente
podem variar em intensidade. Nos primeiros estágios,
o paciente pode querer verificar se é capaz de dominar
os sintomas obsessivos e compulsivos. Em certos casos,
os rituais compulsivos tomam o tempo de tal forma que passam
a dominar o paciente e a interferirem totalmente em sua
vida. Em outros casos, o paciente pode estudar uma maneira
de adaptar-se aos sintomas obsessivos compulsivos, entretanto,
os sintomas continuam a ser por demais incômodos.
OS QUATRO CASOS SEGUINTES ILUSTRAM ALGUMAS DAS FORMAS TÍPICAS
DE TRANSTORNOS OBSESSIVOS COMPULSIVOS
O
medo da contaminação
Um
estudante adolescente está convencido de que se
ele tocar maçanetas, trincos e puxadores de portas
e de outros objetos, ele será contaminado pela sujeira
ou micróbios. Ele passa horas lavando as mãos
e a evitar qualquer contato social com as outras pessoas,
por acreditar que será contaminado.
A verificação compulsiva
Uma
jovem mamãe está convencida de que ela
vai fazer mal ao seu filho. Incapaz de banir seus sentimentos
obsessivos de sua mente, ela verifica de maneira repetida
os ingredientes relacionados nas embalagens dos alimentos,
a fim de se certificar de que eles não vão
envenenar a criança. Convencido de que o contorno
de algo no caminho trata-se de uma pessoa, e que esta atacará qualquer
um que nele passar, um homem que fez uma bela carreira como
representante de comércio, todos os dias passa horas
verificando a passagem para se assegurar de que ninguém
entrará em sua casa, ou o atacará à beira
do caminho.
A repetição das ações
Um
advogado de meia-idade sente-se obrigado a conferir depois
de arranjar
em uma ordem precisa os objetos sobre uma estante.
Ele completa essa série de ações todos
os dias antes de partir para o trabalho. Se ele não
ficar satisfeito com o cumprimento do ritual, ele o recomeça
depois de tê-lo iniciado, e chega bastante atrasado
ao trabalho.
PERGUNTA / RESPOSTA
Pergunta: Todos os pacientes que sofrem de Transtornos Obsessivos
Compulsivos apresentam simultaneamente sintomas obsessivos
e compulsivos?
Resposta: A maioria dos pacientes apresentam simultaneamente
sintomas obsessivos e compulsivos. Alguns apresentam somente
obsessões ou compulsões.
Pergunta: As pessoas que sofrem de Transtornos Obsessivos
Compulsivos são conscientes do caráter anormal
de seu comportamento?
Resposta: Em geral, as pessoas que sofrem de Transtornos
Obsessivos Compulsivos são efetivamente conscientes
da irracionalidade de seu comportamento. Essa consciência
induz a um sentimento de medo que os outros as tomem como "loucas".
Elas guardam em segredo seus sintomas, o que explica sua
reticência em procurar ajuda médica.
Pergunta: Qual é a diferença entre um comportamento
compulsivo e o perfeccionismo?
Resposta: Não se pode confundir os Transtornos Obsessivos
Compulsivos e a "precisão" positiva, que é a
marca dos níveis de exigência no trabalho ou
nas horas de lazer. O "perfeccionista" acha que
cada um deveria cumprir seus níveis de exigência,
enquanto que a pessoa portadora de Transtornos Obsessivos
Compulsivos se dá conta que suas obsessões
e/ou suas compulsões não tem sentido, que elas
são exageradas; esta pessoa sonha em ver-se livre
desses transtornos. A necessidade de perfeccionismo é diferente
das obsessões e dos rituais que acompanham os Transtornos
Obsessivos Compulsivos, uma vez que estes últimos
destroem a vida da pessoa.
Pergunta: São conhecidas todas as causas dos Transtornos
Obsessivos Compulsivos?
Resposta: Tempos atrás acreditava-se que os Transtornos
Obsessivos Compulsivos envolviam uma afecção
de ordem psicológica ligada a atitudes enraizadas
na infância, por exemplo a importância excessiva
dada ao asseio. Entretanto, foi relatado recentemente que
os pacientes portadores de Transtornos Obsessivos Compulsivos
reagem bem a um determinado grupo de medicamentos, demonstrando
que essa doença é atribuída a uma causa
neurobiológica. Acredita-se que o fator-chave desta
doença seria neurotransmissor chamado "serotonina",
isto é, uma substância naturalmente presente
no cérebro e que atua na transmissão dos impulsos
nervosos. Estudos recentes que utilizaram uma técnica
que avalia como funciona o cérebro, demonstraram que
os pacientes que sofrem de Transtornos Obsessivos Compulsivos
apresentam esquemas de atividade cerebral diferentes dos
observados em indivíduos normais ou pessoas que sofrem
de outros tipos de transtornos psiquiátricos. Trata-se
de mais uma evidência em favor de uma causa biológica
dos Transtornos Obsessivos Compulsivos.
Pergunta: A depressão pode provocar a manifestação
de Transtornos Obsessivos Compulsivos?
Resposta: Dada a incidência elevada de depressão
em pessoas portadoras de Transtornos Obsessivos Compulsivos,
há muito se pensava que os Transtornos Obsessivos
Compulsivos se desenvolviam tendo como causa a depressão.
Agora acredita-se que, na grande maioria dos casos, a depressão é que
se segue aos Transtornos Obsessivos Compulsivos e é considerada
uma complicação da doença, e esses dois
tipos de transtornos devem-se a diferentes causas neurobiológicas.
Pergunta: Os Transtornos Obsessivos Compulsivos são
uma doença familiar?
Resposta: O método de avaliação não
revelou tratar-se ou não de uma doença hereditária,
embora haja indícios de que ela pode ser produzida
em gerações sucessivas de uma mesma família.
Pergunta: Os Transtornos Obsessivos Compulsivos podem ser
facilmente diagnosticados?
Resposta: Sim. De 10 anos para cá, passamos a conhecer
cada vez mais a natureza e o reconhecimento dos Transtornos
Obsessivos Compulsivos e, portanto, esse tipo de transtorno
tornou-se mais fácil de diagnosticar. Entretanto,
ele não poderá ser reconhecido sem que o paciente
discuta com o seu médico, de maneira completa e aberta,
os seus pensamentos obsessivos e seus comportamentos compulsivos.
O TRATAMENTO DOS TOC
Durante
a última década, mudaram-se as perspectivas
para os pacientes portadores de Transtornos Obsessivos Compulsivos.
Em geral, os métodos psicoanalíticos tradicionais
baseados na procura das origens dos Transtornos Obsessivos
Compulsivos na infância não são mais
considerados eficazes. É importante efetuar um diagnóstico
preciso de Transtornos Obsessivos Compulsivos, pois somente
um grupo específico de medicamentos, que exercem um
efeito específico sobre a atividade da serotonina
no cérebro, podem modificar consideravelmente a situação.
Apesar
de nem sempre ser possível a cura completa
dos Transtornos Obsessivos Compulsivos, esses medicamentos,
em conjunto com o desenvolvimento de certas formas de terapia
complementar, podem oferecer aos pacientes uma maneira de
diminuir notavelmente os sintomas obsessivos e compulsivos
que são muito debilitantes e que podem perturbar consideravelmente
a vida do paciente.
PERGUNTA / RESPOSTA
Pergunta: Os Transtornos Obsessivos Compulsivos podem desaparecer
sem tratamento?
Resposta: Para a maioria dos pacientes, considera-se que
os Transtornos Obsessivos Compulsivos sejam um problema crônico.
A afecção habitualmente já existe há vários
anos, ainda que os sintomas obsessivos compulsivos variem
em gravidade. Entretanto, uma pequena proporção
de pacientes não têm mais que um único
episódio.
Os medicamentos associados a uma terapia comportamental oferecem
as melhores perspectivas para esses pacientes.
Pergunta: Em que consiste a terapia comportamental para o
combate aos Transtornos Obsessivos Compulsivos?
Resposta: A terapia comportamental baseia-se em programa
estruturado, adaptado às necessidades individuais
do paciente para combater seus rituais. A terapia comportamental
imprime maior ênfase sobre os sintomas do que sobre
as causas supostas. Seu alvo é mudar o comportamento
do paciente no sentido de incentivá-lo a enfrentar
seus temores (exposição) e depois a esforçar-se
em se livrar de seus rituais compulsivos (prevenção
da resposta). Na maioria dos casos, uma medicação
anti-obsessiva pode reduzir os sintomas a um nível
que permita agregar em seguida a terapia comportamental ao
tratamento.
Pergunta: Qual é a duração normal do
tratamento?
Resposta: Serão necessários cerca de dois meses
para que se possa evidenciar um efeito benéfico nos
pacientes tratados com medicamentos. É preciso ainda
um tempo mais prolongado para que se possa observar os efeitos
máximos. Ainda que não se tenha certeza de
qual deverá ser a duração do tratamento,
o caráter crônico dos Transtornos Obsessivos
Compulsivos significa que, habitualmente, não se deve
tentar diminuir a posologia ou interromper o tratamento antes
de decorrido pelo menos um ano.
Pergunta: O que é possível fazer para tratar
os pacientes que sofrem episódios ocasionais de Transtornos
Obsessivos Compulsivos e de depressão?
Resposta: Felizmente, todos os medicamentos eficazes contra
os Transtornos Obsessivos Compulsivos são igualmente
eficazes contra a depressão (em contra-partida, nem
todos os antidepressivos são eficazes contra os Transtornos
Obsessivos Compulsivos). Portanto, quando as duas afecções
são concomitantes, os medicamentos anti-obsessivos
cuidarão de ambas.
CONSELHOS AOS PACIENTES E SEUS FAMILIARES
Se
você sofre de Transtornos Obsessivos Compulsivos,
ou algum membro de sua família ou do seu círculo
de amizades também tem esse problema, muita coisa
se pode fazer, sobretudo agora que os Transtornos Obsessivos
Compulsivos são melhor reconhecidos e que há disponibilidade
de um tratamento eficaz. Uma pessoa que sofre de Transtornos
Obsessivos Compulsivos dá-se conta de que se trata
de um problema, pois a consciência do caráter
anormal de sua conduta é uma característica
desse transtorno. Os membros da família e as pessoas
próximas também podem estar conscientes do
problema e tentar ajudar o paciente a enfrentá-lo,
não prestando atenção aos seus ritos
ou fazendo de conta que eles não existem mais.
Os
Transtornos Obsessivos Compulsivos geralmente são
acompanhados por sentimentos de culpa no paciente e de irritação
nos familiares.
Como
os Transtornos Obsessivos Compulsivos são considerados
um transtorno de origem bioquímica, ninguém
pode ser acusado; ao contrário, todos os esforços
deverão visar a instauração de um tratamento
adequado e eficaz agora disponível.
Pergunta: Se você sofre de Transtornos Obsessivos Compulsivos,
o que você poderá fazer?
Resposta: PRIMEIRO, esteja ciente de que você não é o(a) único(a)!
Uma pessoa em cada 50 sofre de Transtornos Obsessivos Compulsivos,
e está mais que provado que as obsessões e
as compulsões dessa pessoa são idênticas às
suas. SEGUNDO, saiba que você não está a
caminho de perder o juízo ou não poder sair
mais dessa, que não deve ter nenhuma vergonha por
sofrer de Transtornos Obsessivos Compulsivos. Conscientize-se
da natureza real de suas obsessões e de suas compulsões;
elas são resultantes de um distúrbio bioquímico
sobre o qual você não tem nenhuma responsabilidade.
TERCEIRO, discuta seus sintomas, de maneira completa e aberta,
com o seu médico, que os conhece muito bem, que os
leva a sério e que pode tratá-los de maneira
eficaz. QUARTO, siga rigorosamente o seu tratamento, mesmo
que efeitos secundários às vezes desestimulantes
venham a ocorrer no início. Várias semanas
podem se passar até que o tratamento comece a demonstrar
sua eficácia. QUINTO, procure ser ativo, passe algum
tempo fora de casa. Se você enfrentar seus temores
e tentar não ceder aos seus comportamentos compulsivos,
isso o ajudará a diminuir os efeitos dos Transtornos
Obsessivos Compulsivos sobre sua vida.
Pergunta: O que você pode fazer para ajudar uma pessoa
que sofre de Transtornos Obsessivos Compulsivos?
Resposta: PRIMEIRO, não culpe essa pessoa. Os Transtornos
Obsessivos Compulsivos não têm nada a ver com
uma falta de força de vontade, e a pessoa não
tem a intenção de perturbar a sua vida. SEGUNDO,
incentive ativamente a pessoa sofredora de Transtornos Obsessivos
Compulsivos a procurar a ajuda de um profissional, ofereça
apoio aos seus esforços em querer tratar a afecção.
TERCEIRO, domine a reação de implicância
com as obsessões e as compulsões da pessoa,
pois isso nada mais fará que reforçar esses
comportamentos. Existem outras maneiras de mostrar que você está preocupado(a)
e tocado(a) pelo problema sofrido por essa pessoa. QUARTO,
tente reduzir a influência dos comportamentos compulsivos
adotando relações normais com a pessoa que
sofre de Transtornos Obsessivos Compulsivos. QUINTO, elogie
todos os sucessos, ainda que limitados, obtidos por essa
pessoa em sua luta contra os sintomas.
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